sábado, 2 de outubro de 2021

Do exorcismo, um conto

        Não fora bem quista desde a primeira troca de olhar. Posteriormente, mas antes do fim, seria identificada como vadia. Sempre se expusera. Exposição do corpo mesmo; porque, de dentro pra fora, a exposição era fraca - mesmo sendo letrada e mesmo que pudesse haver algum esforço para simular profundidade. Era admirada (para usar um termo gentil) por quem dizia repudiar essa combinação de exposição corporal + palavras fracas de alta auto estima. 
        Sempre oferecera o corpo para o deleite dos demais, sem fazer qualquer diferenciação entre conhecidos e estranhos: todos eram bem vindos ao seu espaço de ostentação decadente. E, então, as coisas mudaram! Quando fora ameaçada de espancamento, havia um controle por parte de quem a admirava: era possível saber por onde sua algoz andava e fazer com que esses caminhos (algoz e vadia) nunca se cruzassem. Passando o tempo, o controle deixou de existir e o medo, temor, pânico fizeram com que a vadia fosse orientada (sim, por quem a admirava) a se expor apenas de modo privado.
        É engraçado, pensou sua algoz, que o assédio desenfreado de homens estranhos e nojentos não fora suficiente para limitar sua exposição ... por outro lado, bastou a perda do conhecimento do ir e vir e um aviso sincero (e sempre reforçado) de espancamento para que houvesse um pouco de retração.
        Retraia-se, vadia, retraia-se!!! Retraia-se até ficar tão pequena quanto sua alma mesquinha consegue ser.

.Não permita
o cruzamento
dos caminhos
.