sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Da ressaca do mar

Eu devia ter uns seis anos quando passei com minha mãe, de carro, pela Praia de Iracema. 
A rua estava molhada devido às fortes ondas que batiam na faixa de pedras colocada para conter o mar. Eu não entendia a necessidade de "conter o mar" e, menos ainda, como que as pedras (teoricamente mais fortes que a água) não conseguiam cumprir essa função.

O mar é uma porção direta do oceano, uma parte do todo fazendo conexão com o lado terreno da natureza.

O movimento de suas águas é uma demonstração da vontade de se expandir, de ir alem, de tocar em partes da Terra nunca tocada antes.
A força com que ele bate nas pedras é um lembrete de que ele não existe para ser domado, controlado, contido. Toda a sua vitalidade, vem daquilo que é maior que ele próprio: o oceano.

Um mar sem faixa de pedras para contê-lo é calmo e tranquilo e te permite chegar no oceano de um modo agradável e seguro. Ele te convida a entrar em suas águas fluidas, a mergulhar em sua profundidade, a refrescar-se!


Contemple um mar sem faixa de pedras. Aceite o convite!


A ressaca do mar nada mais é que a revolta
do oceano de não poder tocar aquilo que almeja.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Dos baús

Eu cresci com um baú na casa da minha mãe. Um baú velho, pesado, herança de família. Se ele não for secular, está perto disso. Sempre ficou na sala. Sempre guardou coisas antigas e pouco usadas pela minha mãe. Sempre teve um cheiro próprio, característico.

Eu e meus irmãos mais velhos temos um baú, cada um com o seu. Provavelmente, guardamos muitas coisas parecidas dentro deles. Mesmo com as particularidades, com a diferença na disposição daquilo que guardamos, com o tamanho particular de cada coisa que ali fica; ainda assim, são baús preenchidos de coisas bem similares. Eles eram trancados. Fui instigada a abrir meu bau e a olhar os outros baus também, foi quando descobri que a tranca (de pelo menos um dos dois) nem era exatamente uma tranca (ufa!).
Encontramos algumas fotos e videos parecidos, uns quadros pintados com mais e menos cores, coisas inéditas (nos dois baus), além da dualidade presente ali dentro: O cheiro de morfo misturado com o cheiro de coisas novinhas, recém colocadas la dentro; as imagens super nítidas e as outras praticamente apagadas; a ordem cronológica com que as coisas foram sendo guardadas; a forma como retiramos os objetos dali de dentro e mostramos aos outros... 

A rinite ataca.
Há perplexidade com o novo.
A gente vai aprendendo a lidar...

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Da aniquilação

"Você precisa sentir saudades"
Sorriu internamente ao ouvir a frase.
Mal sabia, ao proferir tais palavras, que o sentimento aflorara há pouquíssimos anos; ainda era algo que estava sendo sentido e descoberto.

Naquele exato momento, não havia saudade e não se esperava que ela tivesse tempo suficiente de chegar.
Chegar, ficar, crescer e partir.
Partir inconformada por não ter sido aniquilada, por ter crescido além do que deveria e por ter definhado por conta própria, sem ajuda alguma da sua razão-mor de existir.

No seu lugar, ficou o conformismo de não interferir, a sensação de uma leve quebra de conexões proveniente das vontades não aparecerem nos mesmos instantes, o sentimento de " 'ok' quando for 'ok' ".

A medição apontava "2,5" (quando um número menor que 1,0 já era suficiente).
Com a saudade reduzida a pó, era necessário religar os pontos.
O mais impressionante é que isso não foi um problema: foi feito com maestria, mesmo sem pleno conhecimento de que era isso que se estava fazendo.

Provavelmente, a outra saudade -adulta, pulsante- soube ser guia para que tudo ocorresse da melhor forma possível...

Imagina que fantástico seria se as saudades, crescidas e cheias de discernimento, se encontrassem na mesma fase da vida?!

Saudade é um sentimento que se aniquila quente, fervendo.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Das ocasionalidades

  Uma entrada despretensiosa no museu. Uma segunda visita na mesma sala: era preciso checar a visão que se teve.
  Andanças, andanças e mais andanças pelas ruas de pedra da cidade mais movimentada pelos turistas. Procura-se uma padaria, acha-se frutas, doce e pão de goiaba. Procura-se wi-fi, acha-se livro. Eduardo Galeano, para ser mais exata. Um verdadeiro achado!!!
  Uma primeira noite a base de danças tipicamente locais, histórias divertidas e mais andanças.
 
  Um amanhecer com praia! Não se pode fixar o olhar por muito tempo em um único ponto para não correr o risco de ser rude (apenas nas artes há liberdade para uma admiração mais demorada).
  Um entardecer com mais andanças (dessa vez, em busca de pão) e uma noite preenchida com risos, sorrisos e capoeira: há felicidade no meio dos turistas que lotam a cidade. Há um encantamento notório e um sorriso silenciosamente gritante.

  Uma trilha para encerrar a estadia! Com direito a um percurso tradicional e um percurso a ser desbravado. Com direito, também, à frutas compradas com os produtores locais: tomates, laranjas e -principalmente- goiabas! Um caminho, de ida e de volta, preenchido ora com o silêncio e sorrisos e ora com pensamentos interessantes e risos.

  (...)

  Tem coisas que traduzimos em palavras e tem coisas que sentimos (com o corpo e a alma) e deixamos ser percebidas por meio de olhares e sorrisos (os últimos dias foram assim)!

  Grateful =)


Trilha sonora:
It's so easy ("It's easy")
Welcome to the jungle ("Do you know where you are?")
Paradise City ("So far, away")
Sweet child o' mine ("Where do we go now?")

{29.3.18 - 01:47}

quinta-feira, 29 de março de 2018

Da espera de 15 anos

Foram 15 anos esperando pelos últimos 10 dias. Uma espera que valeu a pena. Uma espera que terminou no momento exato que deveria terminar.
A capital, a "cidade do meio", a mais badalada, a charmosa, a praia vista por todos e a capital novamente. Cada museu, cada foto, cada ida à padaria, cada pintura nas paredes me trouxeram a emoção de estar vivendo os ocorridos de quase 60 anos atras. As ruas, as pessoas, a segurança de andar em paz! O sorriso solto, os monumentos, as praias perfeitas, a felicidade de voltar a viajar.
É preciso dizer que: sim, é exatamente tudo aquilo que eu achava que seria. Melhor: foi muito mais que aquilo que eu achava que seria!!!
As coisas acontecem quando tem que acontecer; não importa se é necessário esperar 15 anos ou 2 dias, elas acontecem quando devem acontecer
{28.3.18 - 22:16}

O encantamento, a emoção e felicidade, são indescritíveis.
A respiração profunda, os olhos molhados o sorriso nos lábios são como consigo traduzir o sentimento dos momentos vividos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Das aparições

Um Leão apareceu na Praça da Liberdade.
Na Praça da Liberdade (que lugar mais propício)!
Observa, analisa, fica quieto, aproxima e vai embora.

É um Leão jovem, embora tenha comportamento e postura de adulto.
Natural de todo felino, é desconfiado, não permite facilmente uma aproximação e não dá um passo a frente sem a confiança de que será um passo certeiro.
Natural também de todo felino, é digno de apreciação e de encantamento (olhem essa foto!!!).
Além disso, ainda é natural de todo felino a afetuosidade e o humor, apesar de demonstrarem alto grau de seriedade (já viram um sorrindo?!).

As aparições são constantes e cada uma delas é uma oportunidade de criar confiança, de olhar nos olhos e minimizar uma barreira de proteção, de aproximar, de estar (e de ser).

Um Leão apareceu na Praça da Liberdade.
Poesia.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Do carnaval

O ano era 2010. 
Havia uma crise. 
Uma crise MUITO forte.

A solução encontrada, seguindo o jeitinho brasileiro, foi sair para pular no carnaval.
Aproveitar a folia, ser feliz por 4 dias, brincar, curtir, entrar na onda do feriadão, esquecer dos problemas do mundo, da crise, das tristezas, das dores.
Foram quatro dias muito bem aproveitados: praia, shows, fins de noite com direito a fast food, novos sabores, madrugadas a fio, ousadias, pessoas novas, filme na casa de amigos, outros caminhos, amigos de longas datas em todos os momentos, novas experiências.

Foi libertador, mesmo que a libertação (na prática) só tenha vindo depois de algum tempo.


O ano é 2018.
Não há uma crise real.
Mas foi usado o mesmo artifício de outrora (com algumas adaptações, claro).

Continua sendo libertador, mesmo que a libertação (na prática) já tenha ocorrido há algum tempo.


É quarta-feira de cinzas.
Há um sorriso nos lábios, uma mente tranquila e um bem estar sincero.