sexta-feira, 29 de abril de 2022

Do primeiro ciclo (Da ausência)

Acordei às 06:30 e, mesmo não tendo mais o costume de tomar café da manha, abri a geladeira e me servi de uma generosa fatia de bolo. De chocolate. Doce. Seguido de água quase gelada.
Forrou o estômago. Parcialmente, consegui me iludir de que o dia iniciara doce, minimamente doce.

O texto da música passou, do dia 17 passou, do natal passou (o próprio natal passou - quase que desapercebido). O ano novo passou. Minha mudança de ciclo passou (gratidão pelo presente). A promoção, finalmente, aconteceu. O respirar novos ares se concretizou (mesmo com todos os questionamentos inquietantes do período).

Já está de noite. Em casa, comi mais bolo. Uma fatia. Duas fatias. Morango. Músicas do Nelson Gonçalves. Lembranças. Estaticidade.

Todas as decisões não compartilhadas. Todas as novidades. Todas as ideias. Todos os questionamentos. A ausência de aprovação. De norte. De orientação.

Amargo.

...

Do ar que não nos deixa afundar,
Mas que não é o suficiente para
que fiquemos de pé.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Do que não se comemora

Foi lá atrás, no tempo do colégio ainda, que a Melina me disse que apenas o período de seis meses que deve ser comemorado. Não um mês, não um ano: seis meses! Ela tinha toda uma explicação que eu não dei importância, nunca fez sentido pra mim.
No começo de novembro eu já tinha parte desse texto pronto, pensei em destinatar diretamente, pensei em escrever alí mesmo, quando tudo estava mais a flor da pele, mais latente. Desisti. Me reuni e debati, mentalmente, com aquelas que habitam meu corpo em forma de arte e desisti.
Eu sei que hoje são dez (e não nove), mas a questão é que eu estou virada e o sol não nasceu ainda: ainda é nove. Ainda é nove e ontem foi quarta-feira. Ainda é nove e o Tim continua tocando -mais leve, mais suave, menos marcante, menos dolorido, mas continua tocando. Ainda é nove e eu não sei se entendi o que deveria entender, porque aquele sentimento verdadeiramente ruim e super raivoso continua sem aparecer. Ainda é nove e ainda há objetos. Ainda é nove e ainda há cabelo-gliter (im-pres-si-o-nan-te, né?). Ainda é nove e eu ainda sorrio quando vejo aqueles bebes. Ainda é nove e eu não sei quando deixará de ser (por completo).
O sol começa a nascer, o dia dez também!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Do que eu não disse

Como eu queria te ajudar
E te explicar que era verdade
O que você sentiu ninguém forçou
Você tem tanto medo

Por que não pode acreditar
Que finalmente isso deu certo?
Sem procurar razão pra dizer não
Se bate o desespero

Eu acredito que não foi por mal
Mas que fez muito mal pra mim, fez mesmo
Mas que fez muito mal pra mim fez mesmo
Mas que fez muito mal pra mim fez mesmo

Não, não desliga, por favor
Nós dois sabemos que a gente
Não vai mais se encontrar
Nem se quiser, é muito deprimente

Não chora mais, vai, por favor
Eu sei que você também sente
Mas se não é igual, não leve a mal
Vou fazer diferente

Não fala isso, por favor
Eu já passei por tanta coisa
Eu não vou mais ser seu amigo
Eu quero até, mas não consigo
Eu também vou sentir saudades
E eu também vou chorar sozinho

Não peça tempo para eu te esquecer
Que eu me acostumo, mas eu não te esqueço
Que eu me acostumo, mas eu não te esqueço
Que eu me acostumo, mas eu não te esqueço
Eu te prometo que eu jamais te esqueço

Eu gosto tanto de você
E eu aguentei por muito tempo
Eu fiz o meu melhor, mas não dá mais
Hoje eu morri por dentro
Tim, gratidão
-por essa e outras-

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Da fluidez

Resolvi fazer uma limpeza pontual. Abrir espaço, me desfazer do que começava a ficar empoeirado, deixar as energias fluírem. Funcionou!  

Já aconteceu de você procurar uma flor diferenciada na floricultura, encontrar, admirar, não levar e depois achar essa mesma flor numa praça? Me aconteceu!  

De uma forma fluida, suave, fácil, sem precisar tirar leite de onça (pois, vegan!) ou de pedra, vivenciei uma experiência permeada pela calmaria, gentileza e leveza; preenchida por uma beleza que há muito não se (vi)via.  

Não havia pressa também e a percepção do tempo mudou: os minutos não escorriam pelas mãos, eram apreciados em sua plenitude; a sensação de mais horas decorridas, enquanto o relógio mostrava que ainda era cedo; o tempo-espaço parando-movimentando...  

Foi uma vivência, inicial, de 2 dias; mas intuo que, numa perspectiva de 58 anos, foi um pouco mais. 

sábado, 2 de outubro de 2021

Do exorcismo, um conto

        Não fora bem quista desde a primeira troca de olhar. Posteriormente, mas antes do fim, seria identificada como vadia. Sempre se expusera. Exposição do corpo mesmo; porque, de dentro pra fora, a exposição era fraca - mesmo sendo letrada e mesmo que pudesse haver algum esforço para simular profundidade. Era admirada (para usar um termo gentil) por quem dizia repudiar essa combinação de exposição corporal + palavras fracas de alta auto estima. 
        Sempre oferecera o corpo para o deleite dos demais, sem fazer qualquer diferenciação entre conhecidos e estranhos: todos eram bem vindos ao seu espaço de ostentação decadente. E, então, as coisas mudaram! Quando fora ameaçada de espancamento, havia um controle por parte de quem a admirava: era possível saber por onde sua algoz andava e fazer com que esses caminhos (algoz e vadia) nunca se cruzassem. Passando o tempo, o controle deixou de existir e o medo, temor, pânico fizeram com que a vadia fosse orientada (sim, por quem a admirava) a se expor apenas de modo privado.
        É engraçado, pensou sua algoz, que o assédio desenfreado de homens estranhos e nojentos não fora suficiente para limitar sua exposição ... por outro lado, bastou a perda do conhecimento do ir e vir e um aviso sincero (e sempre reforçado) de espancamento para que houvesse um pouco de retração.
        Retraia-se, vadia, retraia-se!!! Retraia-se até ficar tão pequena quanto sua alma mesquinha consegue ser.

.Não permita
o cruzamento
dos caminhos
.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Do que ainda dói

 
Comprar comidas diferentes
O suco de chá mate com limão
A água com gás São Lourenço
A tentativa de ser amável com o Shaman quando estou impaciente
Fazer exames via nasal
O fim das viagens
Andar todos os corredores do mercantil
Os livros não lidos a tempo
As fotos
Os vídeos
A voz ecoando na minha cabeça
A pergunta super real "por que você está correndo tanto?" na BR a 130km/h
Admirar as joias
O silêncio reflexivo
As novidades não contadas
O meu pé de limão
A ausência
Os 150 dias

terça-feira, 28 de setembro de 2021